TB - Você tem um jeito de ser bom em matemática...
MR - Desde a adolescência tive essa facilidade. É uma das poucas
coisas em que você pode ter certeza absoluta. TB - Como foi seu vestibular
para Engenharia?
MR - Acho que fui bem, mas nunca fiquei preocupado em tirar nota boa. No ginásio,
descobri que era bom aluno ao ser salvo de uma suspensão. TB - Por
que Eletrônica?
MR - O curso da Universidade Federal do Rio de Janeiro, na Ilha do Fundão,
ensinava de tudo. Eu já
tinha construído amplificadores de áudio e desmontado várias
coisas que eram de meu pai. TB - Você foi estagiario?
MR - Na Moddata, uma fabricante de mesas telefônicas para as corretoras
de valores. A empresa tinha comprado a OZ para produzir modems Mais tarde, adquiriu
a Coencisa, com fábrica em Brasília. TB - O que você
fazia?
MR - Era época em que nasciam os sistemas controlados a microprocessador.
O poder da era digital, então, ficou aparente para mim. Achei que era possível
fazer qualquer coisa com aquele negócio. TB - Você só
desenvolvia hardware?
MR - Também software para fazer o produto completo. Vi que existia, ali,
uma ferramenta sem igual. Não havia conhecido nada semelhante, nessa dimensão. TB - Como você foi parar nos Estados Unidos?
MR - Vi que a microeletrômca era uma ferramenta poderosa, porém faltava-me
entender seus fundamentos e o desafio sistêmico dessa ferramenta. TB - E o mestrado?
MR - A minha idéia era fazer um mestrado lá fora e voltar para o
Brasil. Peguei todas as minhas economias e verifiquei que tinha condições
de me bancar por um ano no exterior. Fui embora para entender melhor os desafios. TB - Foi o desafio que lhe tornou empresário?
MR - Acho que sim, ainda que não fosse aparente na época. Já
era a veia do empreendedor apostando naquilo que a gente tem de mais precioso,
que somos nós mesmos. TB - Como foi sua chegada na Califómia?
MR - Fui para a Universidade, em San Diego. Eu achava que dominava a língua
inglesa. Descobri que não era bem assrn. Uma família acolhia estudantes.
Hoje, a considero como meus pais. TB - O que você estudou?
MR - Entrei para Teoria da Comunicação e Sistemas. Fiz o mestrado
em nove meses. TB - Só?
MR - Nunca estudei tanto em minha vida; uma coisa de doido. Tive que fazer tudo
muito rápido, havia descoberto que meu dinheiro iria acabar. TB -
E o doutorado?
MR - Ao término do mestrado, consegui o primeiro lugar na turma. Logo eu,
o azarão. Ganhei uma bolsa para fazer o doutorado. Meus planos mudaram.
Eu era solteiro, tinha até uma namorada no Brasil, mas resolvi ir adiante. TB - O Bell Labs?
MR - Terminei meu doutorado em dois anos e recebi o convite de algumas empresas
e da própria Universidade. Os Bell Labs eram algo inimaginável,
o berço de uma quantidade de invenções. Fui parar em Holmdel
(Nova Jérsei), a matriz do Bell Labs. TB - Você virou cientista?
MR - Pensei que iria ficar um ou dois anos e depois voltar ao Brasil. Tenho cinco
patentes nos seis anos que lá fiquei. Publiquei 20 e tantos papers. TB - Como é trabalhar no Bell Labs?
MR - Você tem uma quantidade de problemas importantes e o convívio
de pessoas fantásticas que desenvolvem as ferramentas que você precisa. TB - Você vinha ao Brasil?
MR - Todo ano. Um brasileiro, quando no exterior, começa a enxergar como
o País é especial. O brasileiro é diferente dos demais. Há
um calor humano e um nível de interação que você não
acha em outro lugar. TB - Quando resolveu regressar?
MR - Procurava uma casa para comprar nos EUA. Pensei que, se adquirisse um imóvel,
não voltaria mais para o Brasil. Decidi ter a doce ilusão de ser
dono de meu destino e que queria morar aqui. TB - Você pegou as mudanças
no Bell Labs ?
MR - Eu peguei um período em que o sistema Bell foi separado em sete operadoras
locais e na AT&T, de longa distância. Eu entendi que trabalhava num
sistema muito grande. Onde eu trabalhava havia 3 mil PhDs. TB - Como foi
a mudança?
MR - No início, tive a impressão que o mundo externo era irrelevante
frente ao tamanho da empresa. Você era abrigado e acolchoado. Depois aconteceu
uma mudança que eu achei espetacular. TB - Como assim?
MR - Qualquer projeto, para ter orçamento, tinha que ter a aprovação
de uma unidade de negócios. Quem tivesse boas idéias tinha que vender o projeto para as unidades. TB - Eles reservam uma verba para pesquisa pura...
MR - Exatamente. TB - Como isto lhe impactou?
MR - Vi que o talento tem que servir para alguma coisa e, assim, contribuir para
o mundo. Percebi o poder de liderança numa organização para
motivar pessoas, rumo a realizações de coisas importantes. TB - Foi lá que voce quis ser empresário?
MR - O Bell Labs tinha uma série de cursos. Fiz um de preparação
para executivos. Havia um teste vocacional. Tomei o teste e saiu claramente que
eu podia ser uma das duas coisas: cientista ou empresário. TB - Acabou
em simbiose. Você regressa e daí?
MR - Ao voltar, fui para o Grupo Odebrecht que tinha no seu plano estratégico
a diversificação de seus negócios. Eu trabalhei na OTL, depois
STL. TB - Como foi na Odebrecht?
MR - A idéia era a telecomunicação celular. A empresa, mais
tarde, seguiu outro rumo, o de papel celulose; hoje importante no grupo. TB - O que fez no grupo?
MR - Estamos falando de 1993. Tudo que havia de interessante em telecomunicações
estava nas mãos do Govemo federal. Recomendei que o grupo Odebrecht precisava
complementar as operadoras da época. TB - O que você concluiu?
MR - A Odebrecht deveria desenvolver uma integradora de sistemas especializada
em redes de comunicação de dados para o mercado corporativo. TB - Você deu uma de consultor...
MR - Na época, fui a uma palestra do Sérgio Motta, lá em
Foz do Iguaçu, onde mostrou que na receita das teles apenas 3% correspondiam
a serviços prestados para as corporações. Um absurdo. TB - E a Prolan?
MR - A Odebrecht acabou comprando a Prolan. Ela havia sido fundada, em 1989, por
Carlos Rocha. Ele teve a visão correta do mercado de comunicação
de dados e soube identificar as tecnologias e as empresas do futuro. TB - De quais tecnologias estamos falando?
MR - Um dos projetos que desenvolvi no Bell Labs foi o de participar da definição
dos serviços de rede que a AT&T iria oferecer, criando um novo mercado.
TB - A Prolan teve parceiros?
MR - Ela trouxe para o Brasil a parceria com a Cisco e a Stratacom, que eram exatamente
as tecnologias que nós, na AT&T, havíamos escolhido para o lançamento
dos serviços de comunicação de dados. A Prolan estava na
mosca. TB - O Carlos Rocha vendeu a Prolan para Odebrecht?
MR - Sim, em 1994. Primeramente, fiquei com a responsabilidade de desenvolver
a Prolan, na época uma distribuidora de produtos de tecnologia numa empresa
de engenharia de integração de sistema. Um desafio. TB - Quem
dirige a Prolan?
MR - José Barbosa Melo ficou inicialmente à frente da Prolan e depois,
o Jaime Zamlung. O Jaime é um dos pilares da empresa; ele trouxe uma bagagem
tremenda de gerenciamento de projetos complexos. TB - Qual o atual perfil
da companhia?
MR - Fazemos projetos que aumentam a eficácia do negócio dos nossos
clientes, aliada a extrema capacidade de gerenciar projetos complexos.
TB - O diferencial?
MR - Eu diria que nós tivemos a felicidade de reduzir o risco tecnológico
a zero, na concepção e implementação de projetos complexos. TB - A Prolan, em 1994, era grande?
MR - Era pequena. Faturamos R$ 4 milhões, naquele ano, com apenas 35 pessoas. TB - Houve mudanca acionária e você tomou-se o dono da Prolan?
MR - Em 1995, surgiu, com o ex-ministro das Comunicações Sérgio
Morta, a Lei Mínima e a participação da iniciativa privada
na Banda B. A Odebrecht decidiu que a sua ação seria no campo da
comunicação celular. A linha de ação que tínhamos
identificado para a Prolan era para o mercado corporativo. TB - Ai você
comprou a empresa?
MR - Em dezembro de 1995, Jaime e eu adquirimos a Prolan da Odebrecht. Comprei
a empresa duas vezes, a primeira como empregado e a segunda como dono. TB - Que projetos foram feitos?
MR - Fizemos a rede corporativa integrada de voz, dados e videoconferência
do Bradesco. O Projeto Teleporto do Rio de Janeiro foi o primeiro a ter redes
locais virtuais gerenciadas. A Prolan iniciou 1996 com um faturamento de R$ 12,5
milhões. TB - Como está a empresa em 2002?
MR - Fechamos o ano passado com 330 pessoas e uma receita de R$ 292 milhões.
Ou seja, 20 vezes mais do que em 1994. TB - Vamos tratar de tecnologia IP?
MR - Este é um assunto vital. É a questão que, hoje, mais
faz diferença na evolução dos serviços de telecomunicações
e na convergência. TB - É uma mudança fundamental?
MR - Sim. O protocolo Intemet é um salto quântico que leva você
de uma esfera para outra. O essencial no IP é ser ele um pacote muito especial.
É um pacote de controle de conexão. Isto faz toda a diferença
e o resto é secundário. Cada elemento da rede é enxergado
pelo IP. TB - Um pacote pode se perder?
MR - Você manda um pacote sem receber de volta a informação
que ele chegou. Mas, se a informação se perder no caminho não
tem problema, a fonte vai mandar um outro logo em seguida, atualizado. É
só você utilizar um protocolo acima do IP. TB - Os endereços
IP estão se esgotando?
MR - Isto era previsto e está sendo solucionado. TB - O ATM não
é pacote?
MR - Eu tenho uma opinião muito clara que o objetivo do ATM difere do IP.
O ATM quer utilizar melhor os meios de transmissão. Com a abundância
de fibra, isso não é tão necessário. Há 10
anos minha resposta teria sido diferente. TB - E o lP?
MR - O IP (Internet Protocol) foi construído para trabalhar num ambiente
de quebras e falhas, tendo que se reconstruir em tomo dessas falhas. A contribuição
fundamental da rede IP é a capacidade de todo nó aprende automaticamente
sobre a topologia da rede e saber reagir e se relacionar. TB - Há
mais?
MR - O IP é um protocolo com os nós de acesso fazendo parte da rede.
A conexão é fim-a-fim e, dessa forma, você incluiu no protocolo
a capacidade de tratamento das necessidades do usuário final. É
uma grande sacada. O IP se sobrepõe a outras formas de comunicação
porque considera o usuário final. TB - Tudo agora é roteador?
MR - Sem dúvida. Ele é cada vez mais simples e fácil de fazer.
Vai estar em tudo. TB - Como vão evoluir as redes?
MR - Tudo está mudando para IP, porque é mais simples. A convergência
é um processo de simplificação. Quem complicar vai quebrar
a cara. O processo de migração não é um processo 100%
controlado. Ele vai tomando corpo. TB - É uma migração
ordenada?
MR - Como existe muito serviço, muita geração de receita,
muita coisa ocorrendo ao mesmo tempo, essa evolução acontece mais
de forma orgânica do que planejada, mas vai ocorrer. TB - Qual o foco
da Prolan?
MR - As pessoas e os computadores isolados têm menos poder de ação
do que se ligados em rede. Queremos mudar o desnecessário e que pode facilmente
ser resolvido com IP para liberar as pessoas para enfocar coisas importantes. TB - E do ponto de vista de negócios?
MR - À medida que essa rede ocupa maior dimensão nas empresas, o
investimento feito nessas redes passa a ser fundamental. Daí a importância
dos sistemas de suporte à operação. |